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1ª PARTE 2ª PARTE
RITOS DE INICIAÇÃO OU DE PASSAGEM EXISTENTES EM
MOÇAMBIQUE
Os ritos de iniciação nas zonas rurais , são
determinados por cerimónias especiais que determinam a aceitação na sociedade rural. Estes ritos são estruturados por um simbolismo
forte por todo o mundo rural , que fornece imediatamente a sua legitimidade . Em várias partes de Moçambique ( províncias
, distritos e localidades ) existem cerimónias que são muito semelhantes em
vários locais, mas com procedimentos distintos variando as suas culturas locais.
Temos no mundo rural cerimónias completamente diferentes e interessantes no seu
contexto cultural e até em algumas localidades podemos encontrar cerimónias
secretas, longe do olhar de estranhos. De uma forma geral os ritos tem como base
os seguinte procedimentos:
- A primeira cerimónia está ligada
ao nascimento, onde é enterrado o cordão umbilical , momento em que os pais apresentam
a criança aos seus antepassados directos para serem reconhecidos como parte da
linha dos seus ancestrais, onde o nome escolhido será prenunciado de forma
solene. Os curandeiros nas zonas rurais , são uma parte importante nestas
cerimónias.
- A segunda cerimónia , que são os
ritos de iniciação , é feita após o rapaz ou rapariga se tornarem aptos para a
procriação. Este Rito tem como regra fundamental , o juramento de manter em
segredo toda a aprendizagem. Existe como
base nesta cerimónia o ensino da obediência cega aos adultos e o não
questionamento das imposições dos mais velhos. As danças , os cantos e as
musicas tradicionais são uma obrigação permanente durante todo o tempo em que a
cerimónia é realizada.
“Em
relação às mulheres”, acontece no momento do surgimento da primeira mestruação,
momento em que a rapariga começa a tornar-se apta para a procriação e desta
forma o primeiro passo de preparação
para o casamento.
Em
alguns distritos o som dos tambores é que anuncia o surgimento da primeira
mestruação, sendo motivo de festa que se pode prolongar durante vários dias.
Para
a realização desta cerimónia, há todo um ensinamento interessante desde o
questionário da madrinha que obtém as informações detalhas da jovem e do porquê
do sangramento inesperado. Seguidamente
surgem as regras bem definidas pelas mulheres mais idosas, que estão presentes
ao longo de vários dias, na qual , vão ensinando como uma mulher deve servir o
homem na cozinha, na casa, na familia, na machamba e na cama, sendo este último
, um dos factores mais importantes na celebração do corpo e da
sexualidade feminina.
Em alguns locais
(ex. Makondes) a mulher também é sujeita a momentos dolorosos que provém da
execução de determinadas tatuagens no corpo e no rosto, a sangue frio, que
duram horas, demonstrando dessa forma, estarem preparadas para enfrentar todo o
tipo de dor que possa surgir nas suas vidas. Estes ritos nas raparigas tem
influenciado negativamente no acesso e permanência na escola.
“Em relação aos rapazes” , geralmente acontece ao
atingir o ínicio da puberdade ( apto a procriar ), a passagem da infância para
a idade adulta. Em muitos casos os pais enviam os seus filhos em tempo mais
precosse para que possam ser homens mais rápido. No dia escolhido pelos mais
velhos , os pais dos jovens rapazes entregam os seus filhos ao chefe da aldeia
para participarem na cerimónia que se realiza num local especifico onde
permanecem ao longo de 15 a 30 dias, vivendo e convivendo ao som da música e de
danças tradicionais , passando por grandes periodos de ensinamentos feitos
pelos mais velhos. A parte mais dolorosa, está relacionada com o corte com uma
faca, do prepúcio e a sangue frio,
originando o derramamento de sangue, que é considerado sagrado, pois esse mesmo
sangue, vai-se misturar ao sangue dos seus antepassados, tornando-se assim um
membro produtivo da sua sociedade rural. O sangue é estancado com argila que
cobrirá o orgão sexual. Em alguns locais (ex. Makondes) além do corte do
prepúcio passam por momentos mais dolorósos onde são tatuádos a sangue frio no
rosto e no corpo. Depois dessa resistência à dor, os jovens são recebidos como
membros aptos da tribo, estando preparados enfrentar qualquer tipo de
sofrimento e aptos para o casamento.
O Estado Moçambicano ao longo do tempo, tem
procurado de forma cuidadosa e de muito respeito pelas práticas culturais, um
entendimento com o povo rural, de forma que os rapazes possam conciliar o calendário escolar com as
cerimónias de ritos de iniciação. As cerimónias hoje em dia, são feitas no período
das grandes férias escolares.
- A terceira cerimónia na vida
rural: “O CASAMENTO”.
“Em relação aos rapazes” , há todo um processo da
escolha da respectiva rapariga. Após isso , dá-se início ás grandes reuniões familiares
que são extremamente demoradas, ,
negociações sérias e com testemunhas relativo
ao pagamento do dote (lobolo ou seja a compra da futura esposa).
“Em relação às raparigas” , há todo um processo que
já vem desde a segunda cerimónia (ensinamentos e regras), a jovem ainda muito jovem vai se mentalizando,
se preparando e se guardando para o dia do casamento . Em algumas zonas da
costa Norte de Moçambique, as raparigas
cobrem o corpo e a cara com Mussiro ( creme tradicional para a pele )
permanecendo assim até ao dia que apareça um pretendente que queira casar. O
pretendente pode ser de qualquer idade adulta, o que em muitos casos as
raparigas casam-se com homens muito mais velhos e maduros.
Os casamentos são realizados ao som de cantos e
danças tradicionais alegres , acompanhadas por tambores e outros instrumentos
tradicionais da região. Na tão esperada noite de núpcias, em vários distritos, as
mulheres mais velhas representantes das duas familias, surrateiramente se
escondem dentro da casa onde os noivos vão dormir , de forma que possam silenciosamente testemunhar o acto sexual e a pureza da noiva. No dia
seguinte pela manhã o lençol com sangue é apresentado a todos os convidados como
prova da honestidade da noiva, tornando-se dessa forma respeitada por toda a
comunidade rural. Se por um acaso o
lençol apresentado não tiver marcas de sangue, a noiva passará pela maior
vergonha e a familia terá que devolver todo o valor do dote, passando a ser
considerada como uma familia não credível no seio da sociedade rural.
- A quarta cerimónia, está ligada
ao momentos fúnebres, que são sempre considerados como o momento da ultima
transição, ou seja , aquela que leva a entrada no reino dos mortos, onde o
espírito dirige-se para o reino dos vivos , é respeitado e louvado ao longo dos
tempos.
Estes rituais são parte viva e forte da cultura rural
moçambicana, uma das suas identidades , que vem passando de geração em geração ao
longo de muitos séculos .
Julio Silva –
Etnomusicólogo do espaço
moçambicano
pesquisador e investigador cultural
credenciado pelo Ministério
da Cultura
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