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Ritos de Iniciação Feminino.

Neste espaço, você poderá  ver uma reportagem sobre  ritos de iniciação feminina. Esta Reportagem foi feita pelo investigador Julio Silva em 2009 no distrito de Angóche, Província de Nampula. 
 
 

 

                                                                             
 
 
 

 

 

  1ª  PARTE                                                                                              2ª PARTE
 
 
 
 

RITOS DE INICIAÇÃO OU DE PASSAGEM EXISTENTES EM MOÇAMBIQUE

Os ritos de iniciação nas zonas rurais , são determinados por cerimónias especiais que determinam a aceitação na sociedade rural.  Estes ritos são estruturados por um simbolismo forte por todo o mundo rural , que fornece imediatamente a sua legitimidade . Em várias partes de Moçambique ( províncias , distritos e localidades ) existem cerimónias que são muito semelhantes em vários locais, mas com procedimentos distintos variando as suas culturas locais. Temos no mundo rural cerimónias completamente diferentes e interessantes no seu contexto cultural e até em algumas localidades podemos encontrar cerimónias secretas, longe do olhar de estranhos. De uma forma geral os ritos tem como base os seguinte procedimentos:

 - A primeira cerimónia está ligada ao nascimento, onde é enterrado o cordão umbilical , momento em que os pais apresentam a criança aos seus antepassados directos para serem reconhecidos como parte da linha dos seus ancestrais, onde o nome escolhido será prenunciado de forma solene. Os curandeiros nas zonas rurais , são uma parte importante nestas cerimónias.

 - A segunda cerimónia , que são os ritos de iniciação , é feita após o  rapaz ou rapariga se tornarem aptos para a procriação. Este Rito tem como regra fundamental , o juramento de manter em segredo toda a aprendizagem. Existe como base nesta cerimónia o ensino da obediência cega aos adultos e o não questionamento das imposições dos mais velhos. As danças , os cantos e as musicas tradicionais são uma obrigação permanente durante todo o tempo em que a cerimónia é realizada.

“Em relação às mulheres”, acontece no momento do surgimento da primeira mestruação, momento em que a rapariga começa a tornar-se apta para a procriação e desta forma o primeiro passo de  preparação para o casamento.

Em alguns distritos o som dos tambores é que anuncia o surgimento da primeira mestruação, sendo motivo de festa que se pode prolongar durante vários dias.

Para a realização desta cerimónia, há todo um ensinamento interessante desde o questionário da madrinha que obtém as informações detalhas da jovem e do porquê do sangramento inesperado.   Seguidamente surgem as regras bem definidas pelas mulheres mais idosas, que estão presentes ao longo de vários dias, na qual , vão ensinando como uma mulher deve servir o homem na cozinha, na casa, na familia, na machamba e na cama, sendo este último , um dos  factores  mais importantes na celebração do corpo e da sexualidade feminina.

Em alguns locais (ex. Makondes) a mulher também é sujeita a momentos dolorosos que provém da execução de determinadas tatuagens no corpo e no rosto, a sangue frio, que duram horas, demonstrando dessa forma, estarem preparadas para enfrentar todo o tipo de dor que possa surgir nas suas vidas. Estes ritos nas raparigas tem influenciado negativamente no acesso e permanência na escola.  

“Em relação aos rapazes” , geralmente acontece ao atingir o ínicio da puberdade ( apto a procriar ), a passagem da infância para a idade adulta. Em muitos casos os pais enviam os seus filhos em tempo mais precosse para que possam ser homens mais rápido. No dia escolhido pelos mais velhos , os pais dos jovens rapazes entregam os seus filhos ao chefe da aldeia para participarem na cerimónia que se realiza num local especifico onde permanecem ao longo de 15 a 30 dias, vivendo e convivendo ao som da música e de danças tradicionais , passando por grandes periodos de ensinamentos feitos pelos mais velhos. A parte mais dolorosa, está relacionada com o corte com uma faca,  do prepúcio e a sangue frio, originando o derramamento de sangue, que é considerado sagrado, pois esse mesmo sangue, vai-se misturar ao sangue dos seus antepassados, tornando-se assim um membro produtivo da sua sociedade rural. O sangue é estancado com argila que cobrirá o orgão sexual. Em alguns locais (ex. Makondes) além do corte do prepúcio passam por momentos mais dolorósos onde são tatuádos a sangue frio no rosto e no corpo. Depois dessa resistência à dor, os jovens são recebidos como membros aptos da tribo, estando preparados enfrentar qualquer tipo de sofrimento e aptos para o casamento.

O Estado Moçambicano ao longo do tempo, tem procurado de forma cuidadosa e de muito respeito pelas práticas culturais, um entendimento com o povo rural, de forma que os rapazes  possam conciliar o calendário escolar com as cerimónias de ritos de iniciação. As cerimónias hoje em dia, são feitas no período das grandes férias escolares.

 - A terceira cerimónia na vida rural:  “O CASAMENTO”.

“Em relação aos rapazes” , há todo um processo da escolha da respectiva rapariga. Após isso , dá-se início ás grandes reuniões familiares que são extremamente demoradas,  , negociações sérias  e com testemunhas relativo ao pagamento do dote (lobolo ou seja a compra da futura esposa).

“Em relação às raparigas” , há todo um processo que já vem desde a segunda cerimónia (ensinamentos e regras),  a jovem ainda muito jovem vai se mentalizando, se preparando e se guardando para o dia do casamento . Em algumas zonas da costa Norte de Moçambique,  as raparigas cobrem o corpo e a cara com Mussiro ( creme tradicional para a pele ) permanecendo assim até ao dia que apareça um pretendente que queira casar. O pretendente pode ser de qualquer idade adulta, o que em muitos casos as raparigas casam-se com homens muito mais velhos e maduros.

Os casamentos são realizados ao som de cantos e danças tradicionais alegres , acompanhadas por tambores e outros instrumentos tradicionais da região. Na tão esperada noite de núpcias, em vários distritos, as mulheres mais velhas representantes das duas familias, surrateiramente se escondem dentro da casa onde os noivos vão dormir , de forma que possam silenciosamente  testemunhar  o acto sexual e a pureza da noiva. No dia seguinte pela manhã o lençol com sangue é apresentado a todos os convidados como prova da honestidade da noiva, tornando-se dessa forma respeitada por toda a comunidade rural.  Se por um acaso o lençol apresentado não tiver marcas de sangue, a noiva passará pela maior vergonha e a familia terá que devolver todo o valor do dote, passando a ser considerada como uma familia não credível no seio da sociedade rural.  

 - A quarta cerimónia, está ligada ao momentos fúnebres, que são sempre considerados como o momento da ultima transição, ou seja , aquela que leva a entrada no reino dos mortos, onde o espírito dirige-se para o reino dos vivos , é respeitado e louvado ao longo dos tempos.

Estes rituais são parte viva e forte da cultura rural moçambicana, uma das suas identidades ,  que vem passando de geração em geração ao longo de muitos séculos . 

 

Julio Silva
Etnomusicólogo do espaço moçambicano   
pesquisador e investigador cultural
credenciado pelo Ministério da Cultura